| Cenário da Cultura Física na Época da Apolo |
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| Escrito por Spartacus Eduardo Bottaro Marques |
| Qui, 16 de Julho de 2009 21:53 |
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Este artigo tem por objetivo dar uma visão geral do cenário da cultura física na época em que a Academia Apolo esteve em funcionamento (1976-1986). Neste período Brasília ainda era uma cidade relativamente pequena e muito influenciada pelos modismos do eixo Rio-São Paulo, principalmente do Rio de Janeiro, pois grande parte de seus moradores eram servidores públicos oriundos da cidade do Rio de Janeiro quando da mudança da capital federal. No início da década de 70 começaram a proliferar pelas quadras e entre-quadras – áreas entre duas quadras, instalações para a prática de exercícios físicos compostas de barras fixas, barras paralelas e pranchas de abdominal, uma clara influência da mesma onda que ocorria nas praias do Rio. A mais famosa destas instalações ficava na quadra SQS 112 Sul, construída junto às quadras de poliesportivas. Esta quadra era habitada predominantemente por militares, tradicionalmente adeptos de exercícios físicos e praticas esportiva. Um grande número de jovens deslocava-se para esta quadra para desfrutar destas facilidades. Nesta época começaram a aparecer os primeiros caras parrudos na cidade. Uma parte destes jovens ambicionava ganhos musculares maiores que o propiciado apenas pelas barras e paralelas. Provavelmente influenciados pelo filme/documentário Pumping Iron lançado em 1977 e protagonizado por Arnold Schwartzenegger que no ano de 1975 havia conquistado o sexto título de Mister Olímpia e pelas fotos deste inigualável fisiculturista que estavam em todas as bancas de revista. Estes jovens então partiram logo atrás de uma academia de treinamento com pesos, outros, como eu, tentaram primeiro o curso por correspondência do Instituto Brasil de Cultura Física, curso por correspondência em seis lições que ensinava a treinar em casa com recursos improvisados como pilhas de jornal. O material é interessante do ponto de vista histórico, mas era muito limitado e decepcionante como método de treinamento, tendo em vista o que já havia à época de publicações do gênero no mundo. Outra parcela dos jovens não aderiram ao treinamento com pesos e permaneceram fiéis ao treinamento apenas com barras e paralelas, em razão disto passaram a ser chamados sarcasticamente de “malhadores de entre-quadra”. A academia de pesos mais tradicional na cidade à época era a Academia Greco-Romana de Cultura Física, localizada na sobreloja do comércio da 509 Sul, acima da confeitaria Flamingo. Era bem ao estilo underground, como costumavam ser as academias de pesos na época. Muitos pesos, pouca iluminação, limpeza? não lembro de ter visto faxineiro por lá, ausência de mulher e as figuras mais variadas e de níveis sócio-econômico distintos. A academia exalava cheiro de suor dormido e mamão da alimentação do papagaio do dono da academia. O Sr. Michel Costea e seu filho também treinaram nesta academia por muitos anos, mas como empresários de visão e amantes da cultura física logo perceberam a demanda crescente por academias de pesos que crescia na cidade. Então, no ano de 1976 inauguraram a Academia Apolo de Pesos e Modelagem. Sua primeira sede localizava-se no subsolo de um dos blocos do Centro Médico de Brasília na quadra 716 Sul, próximo a Farmacotécnica e ao Hair Center, outro empreendimento do Sr. Michel Costea. A academia contava com os mais modernos equipamentos nacionais da época, da marca Righetto. O mais famoso aparelho da marca era o aglomerado Apolo, com várias estações, que ficava no centro da academia. Creio ter sido o nome do aparelho que inspirou o nome da academia. O público jovem migrou em peso para a Apolo. Eu só tomei conhecimento da mesma um ano depois de sua inauguração e em 1978 nela ingressei. Nos últimos anos da década de setenta o grande fisiculturista era Frank Zane, que havia faturado os títulos de Mr. Olímpia de 1977, 1978 e 1979. Nestes mesmos anos iniciaram as competições do The World´s Strongest Man realizadas nos estúdios da Universal na Califórnia. A revista que mais dava cobertura a este evento era a Strength & Health pertencentes a Bob Hoffman da York Barbell. Infelizmente esta revista parou de ser publicada em 1986. Nos anos 80 os grandes do strongman foram Bill Kazmeier e Jon Pall Sigmarsson. Outras revistas importantes da época, pelo menos as que chegavam às bancas de Brasília, eram a Muscle Builder do empresário Joe Weider, que em 1980 passou a chamar-se Muscle & Fitness, revista de excelente qualidade gráfica, com maravilhosas fotos coloridas dos grandes fisiculturistas da época; a Muscle Digest, que foi publicada de 1976 a 1984; e as revistas ainda hoje publicadas, IronMan, Muscle Mag International, Flex e Muscular Development. Esta última também pertenceu ao grupo York e foi editada pelo grande Jonh Grimek até 1986 guando foi vendida para o grupo TwinLab. Os filmes que mais faziam sucesso na época entre os culturistas eram os protagonizados por Sylvester Stallone: Rocky de 1976, Rocky II de 1979 e Rambo de 1982. No final dos anos 70, Arnold Schwarzenegger era apenas ídolo no fisiculturismo, somente após o sucesso do filme Conan o Bárbaro de 1982 é que Arnold tornou-se conhecido como ator. Na década de 70 ainda não tínhamos suplementos alimentares sofisticados no Brasil. Como fonte de proteínas usava-se o leite ao natural ou em batidas tipo vitamina. Era comum alguns alunos após terminarem de treinar passar na padaria da esquina e comprar um litro de leite, daqueles leites de saquinho - ainda não havia leite tipo longa vida naquela época. Cortavam a ponta do saco e iam bebendo o leite no caminho de casa. Quem tinha uma granhina sobrando comprava os tradicionais compostos lácteos Sustagen ou Meritene, eram produtos caros na época. Para repor as energias durante os treinos alguns usavam o Dextrosol da Nestlé, constituido pelo açucar dextrose. Posteriormente, em 1983 surgem os suplementos proteicos Proteinato de Cálcio da Integralmedica e em 1986 surge o Protein 80 da Probiótica. Os outros suplementos comuns eram o levedo de cerveja em pó, fonte de proteínas e vitaminas do complexo B, o germe de trigo, rico em vitamina E e a aveia em flocos. Todos costumavam ser adicionados ao leite, juntamente com frutas, principalmente banana, ovos crus e às vezes cerveja preta Caracu. Havia na 506 Sul uma lanchonete chamada Vitamina Central, os colegas de academia que moravam por perto ou tinham carro costumavam passar lá após o treino e tomar uma destas mistura explosiva. Alguns produtos farmacêuticos que eventualmente usavamos como suplemento eram: Targifor, Forten, Ornitargin, Enzicoba, Cobavital e Carnabol. Outra característica da época é que ainda não havia tantas regras de etiqueta nas academias como há atualmente. Na época podia-se treinar de chinelos ou mesmo descalço, sem camisa, e não era raro ver algum colega treinando apenas com sunga de banho. Luvas ainda não eram muito difundidas, o que se costumava levar para a academia e para fazer barras e paralelas na rua era um par de esponjas sintética quadrada do tamanho da mão. Posteriormente algumas academias passaram a oferecer aos alunos estas espumas que ficavam disponíveis em cestos espalhados pela academia. Não havia roupas próprias para a prática de levantamento de pesos, a maioria dos atletas usava calção de futebol das marcas Drible, Topper e Silze ou camisetas regata e shorts para jogging das marcas Canalonga e Fast Feet. Naqueles tempos também não se fabricava cinturão de couro para agachamento e tínhamos que mandar fazer. Em geral mandávamos confeccionar na Casa de Couros Levi na 311 Sul, à época uma loja grande e sortida. Não havia música ambiente nas academias, o som predominante que se ouvia era o do bater dos pesos e o gemido de esforço dos atletas. Uma modalidade que fazia parte do culturismo naqueles tempos era a luta de braço, inclusive ambas as modalidades eram regidas pela mesma confederação. Na academia Apolo havia uma mesa de luta de braço muito robusta e que era sempre usada pelos adeptos da modalidade para desafios e treino. Esta mesa costumava ser levada para as principais competições organizadas na cidade. Havia também disponível na academia um aparelho com pesos que reproduzia o movimento da luta de braço, excelente para exercitar a musculatura envolvida nesta modalidade. Nunca mais vi, nas academias por que passei e visitei um aparelho como aquele. Após o fechamento da academia Apolo esta modalidade praticamente se estingui na cidade. |
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